Laurence e Xavier Beysecker escolheram Portugal para criar um projeto que cruza a arquitetura e design com o investimento.
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Maison Amarande
© Francisco Nogueira

Viajaram e trabalharam pelo mundo, mas foi em Lisboa que encontraram o lugar certo para fazer nascer a Maison Amarande, que cruza os mundos da arquitetura e design de interiores com o investimento imobiliário. Laurence e Xavier Beysecker são as caras por detrás deste projeto, um casal francês que decidiu apostar em Portugal para desenvolver, também, vários trabalhos na área da reabilitação de património.

Apaixonaram-se pela capital, uma cidade “com boa energia” e “cheia de edifícios magníficos para remodelar”, sendo o local perfeito para dar início a um novo negócio. E a arte é uma verdadeira fonte de inspiração para esta dupla criativa. “A arte é única. A arte é vida. A arte é a alma de uma casa”, dizem em entrevista ao idealista/news.

Formada pela École des Arts Décoratifs de Paris, Laurence Beysecker já supervisionou vários projetos de design residencial e comercial em Paris, Estocolmo, Hong Kong e Lisboa, ao longo dos últimos 20 anos. Nestes mesmos locais, Xavier, especializado em design, marketing e finanças, dedicou-se à gestão de marcas internacionais em grandes multinacionais. Depois de vários anos a viver em Hong Kong, o casal trouxe para Lisboa a vontade de cruzar os dois mundos num só projeto. E assim nasceu a Maison Amarande.

A reabilitação está-lhes no ADN e nos interiores procuram sempre uma harmonia equilibrada, que mistura várias fontes de inspiração orientais e ocidentais. “Fomos muito influenciados por cada lugar, simplicidade e linhas minimais do design escandinavo, mas ao mesmo tempo caloroso devido às cores e materiais vindos da Ásia. Não esquecendo Portugal, que também traz uma grande influência ao nosso trabalho”, explicam.

O casal é apreciador de arte e ela manifesta-se nos seus projetos e soluções de decoração. A Maison Amarande gosta “de criar diálogos entre os objetos e a arte que existe na casa”. Nada é escolhido ao acaso, pelo contrário. Tudo tem de estar relacionado para contar “uma história e refletir a maneira de ser e estar dos clientes”, dizem.

Nos últimos cinco anos, a Maison Amarande investiu 11 milhões de euros em Portugal. Um dos projetos mais recentes é o DEROUET 25, em Campo de Ourique. Trata-se da reabilitação de um edifício do início do século XX, que deu lugar a duas casas-pátio e a quatro apartamentos. No portefólio, contam ainda com vários outros exemplos de remodelação, cá dentro e lá fora. 

Amoreiras House
Amoreiras House/ Créditos: Francisco Nogueira

A Maison Amarande cruza os mundos da arquitetura e design de interiores com o investimento imobiliário. Por que é que escolheram Portugal (e porquê Lisboa) para fazer nascer este projeto?  

Xavier Beysecker (XB): Sentimos que Portugal era a combinação perfeita entre cultura, beleza, qualidade de vida e oportunidades de negócio. Também sentimos que o nosso ADN, que é feito de um estilo de design único e intemporal - com atenção aos detalhes e um elevado padrão de qualidade - poderia trazer uma abordagem diferente, com base num atelier de design de interiores interno e capacidades de desenvolvimento imobiliário. Sentimos que aqui existe lugar para projetos residenciais, onde o design de interiores é uma prioridade e, acima de tudo, sentimos que era um lugar para a estética que a Laurence Beysecker, diretora criativa, tem desenvolvido e, também, para a alma da Maison Amarande.

Sentimos que Portugal era a combinação perfeita entre cultura, beleza, qualidade de vida e oportunidades de negócio.

Chegaram em 2017, regressados de Hong Kong, e “sentiram que algo de novo estava a acontecer”. A que é que se referem? O que é que vos conquistou? 

Laurence Beysecker (LB): A sensação foi um pouco como quando chegamos a Hong Kong em finais dos anos 2000, sentimos aqui uma energia transformadora que nos atraiu imenso. Novos restaurantes, hotéis, lojas, galerias, eventos culturais... A cidade está a redesenhar-se com um sentido estético muito apurado. 

Diziam que Lisboa “estava cheia de edifícios magníficos para remodelar”. Ainda é assim? O que é que mudou desde essa altura?  

XB: Ainda há muitos edifícios antigos para remodelar graças aos antigos contratos de arrendamento, mas os preços subiram exponencialmente no último ano. Por outro lado, o mercado está mais maduro e os clientes começam a ser mais exigentes em termos de qualidade de acabamentos para um apartamento/casa. Consideramos que a Maison Amarande não é uma empresa comercial que lida com a especulação, temos antes uma abordagem a longo prazo. Portanto, o que mais importa é o valor acrescentado que trazemos a cada projeto, independentemente do preço do mercado. Estamos a construir uma imagem e uma reputação que atrai tanto investidores como clientes.

Maison Amarande
Xavier Beysecker/ Créditos: Francisco Nogueira

Em que tipo de projetos investiram? Podem dar exemplos? 

XB: Investimos em áreas premium para desenvolver apartamentos e casas de luxo, como os nossos projetos de Campo de Ourique e Lapa. Continuamos também a desenvolver propriedades com uma abordagem boutique, o que significa um número muito limitado de unidades por edifício ou terreno. Planeamos estender as nossas ações para o Estoril e Cascais. 

Qual foi o mais desafiante até agora? Dentro e fora de Portugal... 

XB: O sucesso de Lisboa é, obviamente, o grande causador das situações mais desafiantes que temos enfrentado: o tempo para o processo de licenciamento, disponibilidade, custo dos empreiteiros, custo dos empréstimos que nos levaram a adaptar a nossa estratégia para manter um nível de margem e retorno do investimento competitivo em relação a outras cidades europeias. 

Paço d'Arcos
Paço d'Arcos / Créditos: João Guimarães

Construir de raiz ou reabilitar? O que preferem e por quê? Ou não se escolhe? 

LB: O nosso ADN leva-nos a focar na reabilitação, mesmo que por vezes, só mantenhamos a fachada e outros elementos-chave, como escadas ou o teto para manter uma característica do final do século XIX e início do século XX. Mas gostamos muito do design da década de 1950 e início dos anos 1960 e adoramos fazer o redesign de um edifício com uma estrutura feita de betão.

E qual o foco dos vossos trabalhos ao nível do design de interiores?   

LB: Coerência, simplicidade, uma paleta de cores significativa e manter ou criar sempre uma personalidade única para cada local que escolhemos desenhar. 

O nosso ADN leva-nos a focar na reabilitação, mesmo que por vezes, só mantenhamos a fachada e outros elementos-chave, como escadas ou o teto para manter uma característica do final do século XIX e início do século XX.

Como é que definem o vosso estilo? Uma mistura entre Oriente e Ocidente?  

LB: É um pouco mais complexo do que isso. Procuramos sempre uma harmonia equilibrada nos nossos interiores, colocando, de forma inconsciente, os vários elementos inspirados por múltiplas fontes de inspiração, incluindo algumas vindas do Oriente e outras do Ocidente. Mas o objetivo final é retratar uma bela história que os nossos clientes farão sua. 

Maison Amarande
Laurence Beysecker/ Créditos: Francisco Nogueira

Viveram em França, Hong Kong, Suécia...que inspiração trouxeram desses países?  

LB: É uma mistura: fomos muito influenciados por cada lugar, simplicidade e linhas minimais do design escandinavo, mas ao mesmo tempo caloroso devido às cores e materiais vindos da Ásia. Não esquecendo Portugal, que também traz uma grande influência ao nosso trabalho. Azulejos, pedras, trabalhos em madeiras, tapetes e têxteis feitos à mão com base numa tradição de longa data. 

A arte é única. A arte é vida. A arte é a alma de uma casa. Reflete de forma muito vincada a personalidade de quem vive na casa. É a forma mais concreta de criar um lugar único. 

A Maison Amarande gosta de criar “diálogos entre os objetos e arte”. Em que medida?

XB:
 A Laurence – e toda a equipa Maison Amarande –, tem uma grande proximidade com a arte, mas são dois desdobramentos: queremos que cada projeto contenha uma criação única, que pode ser em madeira ou pedra, com uma combinação entre o artesanato e o design. Por outro lado, trabalhamos com os nossos clientes para encontrar uma pintura, fotografia ou escultura que faça sentido para aquilo que estamos a criar para eles. O caso mais extremo que tivemos foi de desenhar um interior a partir da coleção e um cliente.

Como é que a arte pode fazer a diferença numa casa? 

LB: A arte é única. A arte é vida. A arte é a alma de uma casa. Reflete de forma muito vincada a personalidade de quem vive na casa. É a forma mais concreta de criar um lugar único. 

Serra Santo António
Serra Santo António/ Créditos: Francisco Nogueira

Que tipo de materiais privilegiam e por quê?  

XB: O vidro canelado é a nossa assinatura, adoramos a forma como cria luz e o efeito de sombra, mantém a privacidade e, ao mesmo tempo, permite que a luz passe. As pedras naturais (e podemos encontrar pedras incríveis aqui em Portugal) que oferecem um leque quase infinito de possibilidades para a construção de interiores únicos. Azulejos cerâmicos com opções infinitas de combinações de cores e formas, elaboram padrões específicos e também tapetes e tecidos que misturam tudo. 

Dizem que o “branco total é aborrecido”. As pessoas têm medo de arriscar nas cores?  

LB: As pessoas não têm medo das cores se forem coerentes e concebidas para acompanhar a arquitetura, mobiliário e peças de arte. Os promotores tendem a favorecer o branco, uma vez que é suposto agradar ao maior número de potenciais clientes, mas pensamos o contrário, e desenhamos espaços únicos para pessoas que são atraídas pelo estilo da Maison Amarande.

Amoreiras
Amoreiras House/ Créditos: Francisco Nogueira

Afinal, como é que se pode ter uma casa com personalidade? Em que se deve apostar?  

LB: Penso que o mais importante é pensar a casa como um todo. Cada elemento é escolhido de acordo com o outro para criar uma composição significativa.

Por fim, quais são as tendências para este ano?  

LB: Cores mais ousadas, a tendência das curvas modernistas vai continuar ainda mais na arquitetura, no design de mobiliário e materiais. Vemos também uma influência cada vez mais sustentável. Portugal como produtor líder está a impulsionar uma tendência de utilização da cortiça no design de produtos como tapetes; e mais recentemente, no design de mobiliário de pedra. A Maison Amarande está a avançar nessa direção, mas, definindo o seu estilo como intemporal, não seguindo tendências.

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